Por que eu resolvi voltar para o Brasil?

meu pôr do sol no Rio

Tenho escutado essa pergunta umas 10 vezes todos os dias: Por que você resolveu voltar para o Brasil? Claro que escuto de diversas maneiras como “todo mundo querendo ir e você voltando”  e por aí vai. Sou chamada de maluca por 9 entre 10 pessoas que conversam comigo sobre o tema.. até porque não é só voltar ao Brasil… é voltar para o Rio de Janeiro, a cidade que está todos os dias no Jornal Nacional com notícias sobre violência. Inclusive tem quem me mande assistir aos jornais, que abra os olhos e etc. Até o cardiologista me recomendou que eu desistisse. Mas não vou mudar de ideia, e nunca quis tanto algo como isso. E confesso.. estou muito feliz!

Eu poderia fazer um texto rebatendo àquele texto do americano que odiou morar no Brasil e fez uma lista onde fala mal desde a comida, passando pelo mercado que não tem congelados, até ao fato de sermos família. Ele tem até uns pontos verdadeiros, mas errou na mão na maioria. Mas depois me contaram que ele fez o texto porque tinha sido traído pela tal esposa brasileira… e definitivamente eu não vou rebater um texto passional… 🙂

Mas vamos ao que interessa.. os porquês de voltar ao Brasil. Nem diria “porquês”  e sim motivos que somados me fizeram tomar a decisão. Como o povo gosta de lista, vou contar nesse esquema, embora não esteja na ordem de importância na decisão. Cada motivo tem seu peso, uns pesam toneladas, outros são a tal gota d’água. Só quero que entendam que é uma lista PESSOAL, com motivos pessoais… o que me incomodou não vai necessariamente incomodar outras pessoas, e vice versa.

  • Eu sou família total e senti muita saudade do convívio com mãe, pai, irmã, sobrinhas, tia, primos e etc. Senti saudade até das manias e chatices da minha mãe (espero que ela não leia rs) . E o fato de ter perdido minha avó e meu primo enquanto morava nos Estados Unidos fez tudo se agravar, pois vivi com um medo constante de estar longe e ter outra perda. Porque o sofrimento é grande tanto perto como longe, mas estando longe a dor é solitária;
  • Eu nem sabia, mas eu adoro gente. E nós brasileiros somos diferentes na forma de nos relacionarmos, a gente conversa na fila do mercado, vibra junto com quem não conhece no estádio de futebol, a gente bate papo com vizinho, motorista de taxi, recepcionista do consultório…  e eu morri de saudade disso tudo. E não adianta falar que dá pra conversar pelo skype, Facetime , Whatsapp… o legal daqui do Brasil é que a gente passa o dia todo conversando, conhecendo pessoas que não iremos ver nunca mais, e nem se dá conta. E isso fez muita falta, porque o povo lá não é disso, eles são, eu diria, até frios;
  • Fazer amizade com americano também não é fácil. E isso vale também para as crianças. Até fazem amizade, mas é algo mais distante. Isso é fácil de notar quando comparo as amigas do Brasil e as dos EUA, as crianças brasileiras são mais calorosas, amorosas, fazem mais questão da companhia das amiguinhas. Até a vida social das meninas no Brasil é bem mais agitada do que nos EUA.. são festas de aniversário, convite pra brincar, sair, cinema.. enfim, existe uma convivência muito maior;
  • Fiquei um ano em Miami e depois fui pra Orlando. Sem dúvida a tal “qualidade de vida”  é “melhor” em Orlando. Não tem trânsito como em Miami ou Rio, é sem dúvida uma cidade mais segura que as outras duas justamente por ser pacata, diria até que é uma cidade do interior (até porque tem fazendas, animais e etc), que vive em função dos parques. E eu diria que pra quem viveu 40 anos numa cidade grande como eu, que morei a vida toda no Rio, é uma mudança radical e não me habituei. É legal no começo, pela novidade, mas tem hora que a vida fica parada demais, pacata demais, e não tem nem onde procurar um agito. Veja bem, não sou de sair de noite, night e etc.. mas é ter opções diferentes, shows, teatros, e isso Orlando não tem. E por isso as aspas na “melhor” qualidade de vida… porque na minha opinião qualidade de vida boa é ter uma mistura entre sossego, família e vida social, tudo na medida certa.
  • E, sem querer rebater o tal americano mas rebatendo, a comida americana é bem monótona e para eles tempero é pimenta. Legume na rua é basicamente brócolis e batata.  Tanto que nos últimos meses eu basicamente só comi em casa. Sem contar que na rua é difícil achar algo saudável e gostoso, esses dois adjetivos não harmonizam na culinária americana.
  • Se tem algo que reclamei em todo o tempo que morei nos EUA foi das escolas. Já contei a saga da escola pública nesse link aqui. Mas até na escola particular o ensino é fraco, e vi isso comparando com o material das amiguinhas do Brasil. Inclusive o maior “medo” da volta era justamente a mudança da escola, ensino e obviamente a diferença do nível das aulas e cobrança. Acho que o ensino só vai melhorando no High School e fica realmente bom apenas nas universidades;
  • Eu fiquei devendo (e vou tentar me inspirar pra terminar o post) escrever sobre saúde nos EUA e vou linkar aqui depois.  Acho que todos sabem que não tem saúde pública. Passou mal tem que pagar e eu não só passei mal como tive uma crise de ansiedade e parei no hospital de ambulância. Pra começar não me socorreram em uma clínica porque eu estava sem carteira (a crise foi na rua enquanto eu estava correndo só com o iphone) e não podia passar o cartão de crédito para ser atendida. Parei no hospital e lá tudo funcionou, até porque a conta vem depois. Mas depois desse dia fui a vários médicos, e não consegui gostar de nenhum. Eles muitas vezes sequer te tocam pra examinar. Tenho certeza, mas não tenho como provar,  que fui enrolada por um dos médicos que me passou mil exames na clínica dele, onde eu gastei um bom dinheiro. Sem contar que você nem pode cogitar ter o telefone do médico. O contato é sempre via secretária. Você pode ter um médico da família, como se chama lá, e se passar mal  não vai ter acesso a ele, coisa que no Brasil é super comum.  Enfim, tudo é pago, mesmo que você tenha o seguro saúde, e eu resumiria que a saúde lá não é nada humana e altamente capitalista. Para amenizar o drama, eu achei uma homeopata acupunturista, brasileira claro, que gostei muito, porém particular e nada barata;
  •  Orlando, assim como muitas cidades nos EUA,  não tem transporte público decente, tudo é longe, muito longe. Pra levar uma filha para a aula de canto eram 40 km para ir e mais 40km pra voltar. Para a escola 60km ida e volta. Resumindo? Com um ano e 3 meses o carro tinha 60 mil km rodados. Chega uma hora que não se tem mais paciência para dirigir.. ok, sem trânsito, estradas boas, mas é muito tempo sentada em um carro;
  • A diferença enorme que é você estar em um lugar onde você é um imigrante ou estar em um lugar onde você nasceu. Parece bobeira, mas faz muita diferença. Por mais que você se adapte ao país, por mais que tenha domínio do idioma, você não vai deixar nunca de ser um imigrante. Lá no tal post da escola eu falei do bullying (vale ressaltar que isso é prática comum nos EUA, diria que é cultural) que meninas sofreram em Miami, e esse preconceito não irá se restringir à escola enquanto estiver morando em outro país, no caso os EUA. Muitas vezes é um preconceito velado, mas vai ter que aprender a conviver com isso, e na minha opinião, com a entrada do Trump isso só tende a piorar.  E sinceramente, eu jamais vou me adaptar à preconceitos, sejam eles quais forem;
  • Eu senti uma falta do mar que vocês não têm ideia. Sou carioca, sempre morei perto do mar, o que não quer dizer que eu ia à praia toda hora. Mas ele estava ali, podia ver. E não adianta argumentar que Cocoa Beach é a uma hora de Orlando… até porque eu não tenho coragem de levar meninas lá depois que um menino da idade delas foi atacado por um tubarão uma semana depois que nós fomos e no mesmo lugar da praia, detalhe, no raso. Na costa do golfo tem umas praias bonitas, como Clearwater e Siesta Beach, mas ficam a mais de 1:30h de distância. Aliás, não só o mar fazia falta, sentia falta de montanhas, a Flórida é altamente monótona visualmente, basta pegar qualquer estrada lá para saber disso.
  • Eu não tenho estrutura psicológica pra aturar os “lockdown” (fechamento da escola e entrada da polícia por conta de perigo) das escolas daqui. Dei sorte porque meninas nunca passaram por isso, mas a High School daqui teve 2 vezes em 2 meses, sendo que ela tem apenas 4 meses de vida! Se elas fossem adolescentes, estariam nessa escola! O pior é que passa pelos jornais, ao vivo, a escola fechada, a tensão, a Swat entrando com armas na mão, sério, isso não é, definitivamente, o sinônimo de “qualidade de vida” de uma mãe. Porque na minha cabeça, escola é o único lugar que deixamos os filhos com a certeza de estarem seguros, mas aqui isso não é verdade. Ok, nos 2 casos era ameaça, boato, mas todo mundo sabe que existem malucos atirando em escolas nos EUA de tempos em tempos;
  • Também não tenho estrutura psicológica pra enfrentar furacão. Passei um perrengue esse ano e contei nesse post aqui.

Acho que é isso.. com certeza vou lembrar de mais coisas depois. Mas não quer dizer que não tenha tido pontos positivos, tiveram muitos e foi um bom aprendizado, posso até fazer um post focado nisso.  Como falei no início, os motivos são pessoais, e cada um se adapta, ou não, de maneira diferente. Eu digo que me adaptei por um prazo determinado, que o prazo expirou e o tempo a mais que fiquei foi bem difícil.

Veja também outros posts da categoria Morando na Flórida para saber como foi esse período

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