Um ano morando na Flórida

meninas no paqruinho perto da escola nova

meninas no paqruinho perto da escola nova

Não diria que passou rápido, mas também não passou devagar. Não posso dizer que adorei esse  ano morando aqui na Flórida, mas também não posso dizer que odiei. Encarei, e continuo encarando pois o prazo não terminou, essa temporada aqui como um aprendizado, e infelizmente um aprendizado que me doeu em alguns momentos, no que se refere às meninas. Na tentativa de tentar acertar e minimizar o sofrimento delas , e o meu, tomei a decisão de mudar de cidade, mas continuaremos a morar no estado. Vou contar o porquê disso no final do post.. primeiro vou contar resumidamente o que achei desse ano morando aqui .

Todos os lugares têm seus prós e contras para se viver, e Miami não seria diferente. Engraçado é que desde o ano passado está saindo na mídia brasileira que os brasileiros estão vindo morar em Miami, que Miami é o Rio que deu certo e por aí vai. Retratam Miami como uma cidade perfeita..e, como perfeição não existe, vou tentar  comentar sobre o que mais os brasileiros acham que vão encontrar em Miami ou nos Estados Unidos mesmo, versus o que existe no Brasil.

Educação Pública

Vou começar exatamente pela minha ferida, minha grande decepção aqui. Cheguei há um ano e coloquei minhas filhas em uma escola pública, e se tem algo que me arrependo nesse  ano é exatamente disso, de ter colocado as 2 nessa escola (lembrando que a escola pública é definida por onde você mora, portanto eu não poderia escolher outra, a não ser que me mudasse).

A escola é toda bonitinha, tem iMacs para as crianças estudarem, enfim, fica linda na foto, mas o ensino, que é o que importa, é muito ruim. Quem é do Rio vai lembrar dos CIEPS do Brizola.. então, é basicamente isso.. super  bonito mas o resto não funciona. O material usado (que é dado pelo governo) é fraco, as professoras são totalmente despreparadas, de todas as formas, principalmente psicologicamente (quem lembra da história do puxão de cabelo, do castigo de frente pra parede e da polícia?) .

O programa de ESL, para receber crianças de línguas estrangeiras, é lindo na teoria, mas na prática eu não vi ele acontecer. E não é só isso, o método de ensino é daqueles tradicionais mas seguindo a linha do tempo da minha avó (basta ver o post que linkei no parágrafo acima).

Aí você pode falar.. ah, você deu azar.. sorry.. não dei não. A escola é avaliada e a nota dela não é ruim. O pessoal daqui realmente acha a escola boa (editei o post pra colocar links sobre isso, link 1, link2, link3) , e o que eu posso dizer é que quando não se tem parâmetro, isto é,  nada para comparar , é difícil emitir um parecer sobre algum serviço/produto. E é isso que vejo de mães daqui dos Estados Unidos, nunca viram outro tipo de escola, outro tipo de ensino, e acham que o que têm é bom (isso sem contar que duvido que saibam que os filhos ficam de castigo para a parede, além de que elas não participam tão ativamente das tarefas). O que não é o meu caso, tanto no papel de mãe como no papel de aluna. Eu estudei em uma escola pública no Brasil, onde o ensino era tradicional e ela era super forte (tão forte que 90% da turma passou para faculdade pública no vestibular, e se alguém falar que isso foi no “meu tempo” basta ver o resultado do ENEM desse ano nesse link). Portanto sei o que é uma escola pública, com alunos de todas as classes sociais (eu tinha amiga que ia de carro com motorista e amiga que não tinha grana pra comprar o lanche), e sei que isso não é motivo para um ensino ruim. E, como mãe, vivenciei o aprendizado das minhas filhas, por 5 anos, em uma escola construtivista, onde não existe decoreba, onde se aprende a pensar até para aprender a ler e escrever . Nem preciso explicar o desgosto absurdo ao ver as duas aprendendo expressões aqui com o método de copiar várias vezes a mesma frase.

Enfim, pra que elas tenham algo parecido com o nível de ensino que tinham no Brasil, procurei uma escola particular. E, para isso,  pagaremos o equivalente a uma ótima escola particular no Rio.

Alimentação/supermercado

Se existe um povo prático, esse povo é o americano, e eu, como virginiana, ADORO. Seja para faxina, como já contei nesse post, ou para comida. Pra quem quer comer comida saudável, orgânicos, saladas, frutas, tudo pode ser comprado cortadinho, separado, limpinho.. mas, infelizmente, tudo é caríssimo. Orgânico aqui, mesmo sem ser cortadinho, é tão caro como no Brasil. O pior é que os produtos que não são orgânicos não tem muito sabor (fruta então é dureza). Falando em fruta.. aqui é o Orange State.. mas tenta comprar suco de laranja natural, sem ser de caixinha ou garrafa? Tem um mercado que vende, mas estou falando de restaurante.. sabe quantos fazem? que eu saiba, nenhum, apenas lanchonetes naturebas e olhe lá.

Não sei se todos sabem, mas corte de carne aqui é bem diferente do Brasil.. pra comprar carne boa eu preciso ir no mercado brasileiro. E carne aqui não é barato.. ontem mesmo paguei R$ 23 em uma bandeja de 3 bifes de alcatra no Publix.

O que é barato aqui, em relação ao Brasil, é o supérfluo, como snacks, refrigerantes, maquiagem, chocolates, e inúmeras outras coisinhas que vendem nos mercados e que todos os brasileiros piram.

Saúde

A sensação que eu tenho é que muito brasileiro não tem idéia de que não existe saúde pública nos EUA, não como nós brasileiros temos no Brasil. O fato é que aqui nos EUA não existe nada parecido com o tão mal falado SUS. Todo mundo precisa pagar para ter acesso à saúde, e não é nada barato. Pra não dizer que não existe nenhum programa para baixa renda, tem sim, mas é preciso provar a baixíssima renda para ter acesso à saúde.

Em linhas gerais, ou se tem um seguro saúde ou reza pra não ficar doente, não sofrer um acidente, enfim, não precisar ver um médico nunca. Mesmo assim, ter um seguro saúde, nos moldes dos planos de saúde que temos no Brasil, onde não é tão comum  desembolsar dinheiro para procedimentos (ao menos que o plano conteste ou algo parecido), é praticamente coisa de rico. Isto é, mesmo pagando o seguro saúde, se for a um médico ou fazer algum exame, terá que pagar alguma quantia não importando o tipo de procedimento ou consulta.

Eu acho esse ponto fundamental para quem pensa morar nos Estados Unidos…isto porque eu tive um tio, um avô e uma avó que morreram de câncer. Todos os 3 tinham planos de saúde, sendo que o do meu tio nem era dos melhores, mas TODOS, sem exceção, tiveram os seus tratamentos cobertos pelos planos. Quer ficar deprimido? Entra no Facebook ou Google e busca por brasileiros que ficaram com essa doença morando nos Estados Unidos. Toda hora aparece alguém fazendo vaquinha nas redes sociais para ajudar um paciente a pagar as contas do hospital. Muito triste.

Agora, estamos no país do capitalismo.. enfim, com dinheiro, na verdade, muito dinheiro, você tem acesso ao que a medicina tem de melhor, o que significa que esse privilégio é pra muito poucos. O resto tem acesso rápido à dívidas estratosféricas, caso precise de um hospital.. tipo, uma conhecida fez uma ultra e uma tomografia de emergência e recebeu a conta de 9000 dólares de presente.

 

Transporte público e trânsito

A Flórida é um estado que não pode ser tomado como exemplo: aqui tudo é feito para usar carro. Até tem ônibus, sim, funciona, mas, parece até o Brasil, tirando o fato de ser bonitinho e ter wi-fi, ele, assim como no nosso país,  não atende às necessidades da população, o que faz todo mundo usar os carros (no Brasil o povo faz milagre e dá seu jeito com vans, metrô, baldeação e etc).

Quanto ao trânsito, eu confesso que estou pirando aqui em Miami..  óbvio que não é no nível de São Paulo, mas sim, tem trânsito, engarrafa muito, tem hora do rush, e nem poderia não ter, com tantos carros pela rua.

Segurança

Pra começar ninguém aqui tem insufilm ou películas nos carros. Carro conversível é figurinha típica das ruas da Flórida.. cada um mais chamativo que o outro. Não rola isso de ser assaltado no trânsito, o que confesso , é uma maravilha de sensação de segurança. Aqui em Miami já dei mole 2 vezes, aliás, as meninas: elas saem do carro e a porta que é daquelas que fecham com o botão não fecha e ninguém vê… uma vez ficou aberta por 2 horas, outra por 3 horas. Nada foi roubado de dentro do carro, e tinha mochila, cabos de telefones, cadeirinhas.. enfim.. tudo ficou como estava.

Óbvio que em shoppings o negócio muda de figura.. os alvos são pessoas que colocam as compras no chão pra mexer na carteira, ou deixam no carro e voltam para o shopping.. enfim.. pessoas desatentas que acabam perdendo suas compras.

Tudo bem também que eu não frequento as áreas perigosas de Miami, muito menos de noite..   e esse teste eu não estou a fim de fazer rs

Poderia fazer um post apenas sobre a Saudade que fica da família e dos amigos do Brasil, que é daqueles calos que doem mais em uns do que em outros. Tudo bem que o brasileiro acaba se juntando (isso quando não tem ninguém da família americano) pra não ficar sozinho, afinal, para os americanos  nós somos latinos e para os latinos que falam espanhol nós não somos nada.

Bom, acho  que falei um pouco de tudo que gera dúvidas sobre morar na Flórida, se alguém tiver mais dúvidas é só perguntar. Queria terminar o post contando uma novidade, aquela que mencionei nos primeiros parágrafos: estou deixando Miami para ir morar em Orlando. 

Tomei a decisão porque tive mais um problema com a escola, o que eu chamo de a gota d’água que fez transbordar a minha paciência. Meninas já vinham falando que não queriam ir pra escola, e eu comecei a achar estranho. Até que perguntei o que estava acontecendo e finalmente uma respondeu: as crianças não queriam brincar com elas porque elas falavam português .  Note que elas estão aqui há um ano, estão se virando super bem no inglês, então o problema não era comunicação. (até porque a maioria de lá fala espanhol também) . O problema era preconceito mesmo, e elas estavam sofrendo bullying. Nem preciso dizer como isso me deixou arrasada… Fiquei pensando no assunto, se ia falar na escola mesmo sabendo que não ia resolver nada, afinal se deixaram pra lá o fato da professora ter puxado o cabelo da Letícia, imagina se iam fazer algo em relação ao bullying?

Pensei muito.. pensei em quanto o método de ensino influencia na formação das crianças na escola. Porque é óbvio que educação, caráter, valores, vêm de casa, da família, mas quando a escola também incentiva ações beneficentes, quando a escola demonstra preocupação com os outros  é claro que isso passa para os alunos,  como a escola das meninas no Rio que chegou a ter seus alunos em várias televisões e jornais (pra quem não sabe , segue o link do Globo e Encontro da Fátima Bernardes ) no ano passado, porque os alunos (mais velhos claro) rasparam a cabeça em solidariedade à professora com câncer. Foi lembrando desse caso que comecei a procurar uma escola construtivista para elas, e, como não foi fácil, procurei uma montessoriana. Aqui em Miami tem, mas eu teria que me mudar ou então passar horas no trânsito… Como tenho muito trabalho em Orlando, e o pai delas também , olhamos as escolas na região..  Depois de ver algumas, descobrimos uma que a princípio é tudo que eu queria para as minhas filhas. Elas visitaram a escola, adoraram, e eu estou ansiosa para que comecem e que superem todas as experiências ruins dessa escola aqui de Miami. Torçam por elas! Ah,  se antes Orlando já era um destino super falado por aqui, isso vai aumentar cada vez mais! 🙂

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